[Post convidado] O dia que cheguei perto do céu 2 vezes

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No meu post anterior eu falei (e mostrei) um pouco sobre a cidade de Vancouver, seus arredores, sua natureza deslumbrante e algumas trilhas incríveis que existem aqui pela região. Hoje vou contar como foi a trilha que marcou a minha vida e me fez definitivamente sentir que estou no Canadá.

Era um domingo de verão ensolarado, tinha combinado com meu amigo de pegarmos o primeiro ônibus da linha 160 depois das 9h da manhã. Queríamos chegar cedo no Buntzen Lake Park pra fazermos a trilha e aproveitarmos bem o dia. Descemos em Port Moody para pegarmos o ônibus C26, alguns minutos depois chegamos no parque e às 10h30 já estávamos começando a trilha.

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Avisos antes do início da trilha deixam claro sobre a existência de ursos na região e alertam para as pessoas tomarem os devidos cuidados.

No começo tudo é muito fácil e bem sinalizado, mas logo a subida de mais de 1000 metros começa e as pernas sedentárias começam a doer. A trilha não é muito movimentada, encontramos poucas pessoas no caminho, talvez por não ter tanta informação sobre ela na Internet, o que nos dá uma sensação de liberdade maior ainda, pois quando não estamos conversando é possível ouvir o barulho dos pássaros e esquilos correndo pelo mato. Tudo que uma pessoa apaixonada pela natureza gosta.

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Árvores gêmeas cresceram sobre as pedras e formaram uma caverna.

Depois de algumas horas de subida já temos uma prévia da vista da montanha. Paramos por pouco tempo e continuamos. O calor e suor foram aumentando e nossa água acabando. Tínhamos a esperança de encher nossas garrafas em algum rio na trilha, mas a maioria estava seca ou sem condições aparente de se beber. O primeiro desafio havia sido colocado pra nós. Mesmo assim, a trilha e o parque de uma forma geral possuem uma energia diferente, muitos cogumelos e blueberries por todo o lado davam vida à trilha. Pinheiros de todos os tipos e tamanhos nos faziam parar algumas vezes para tirar fotos e apreciá-los.

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Vontade de comer os cogumelos gigantes da trilha.

Era por volta de 13h30 e já haviamos caminhado por um tempo sem ver nem ouvir ninguém. O silêncio era quase que absoluto. A sensação de estarmos longe de tudo, de todos e sem ninguém saber onde estávamos era como uma imersão na natureza no meio do nada. Mas de repente o silêncio foi quebrado. Ouvimos um barulho forte vindo de algum lugar do meio do mato. Na hora paramos de andar e sem precisar falar nada um pro outro sabíamos que aquele barulho não era de esquilo nem de pássaro. O coração começou a disparar. Por uma fração de segundo passou pela minha cabeça pegar a câmera na mochila e filmar, mas nem todos momentos da vida esperam pra serem registrados. Em segundos lá estava ele: um enorme urso preto a uns 10 metros na nossa frente. Meu amigo que estava na minha frente abriu os braços. Fiquei na dúvida entre gritar, falar algo ou simplesmente esperar pela morte. O urso olhou diretamente para nós e voltou para o meio do mato. Como se tivessemos atrapalhado ele entrando em seu caminho. Chegamos perto do céu, mas ainda não era nossa vez de ficar por lá.

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Logo ali a 10 metros na nossa frente estava o urso. Foi como ter vivido um sonho.

Pela descrição da história, o encontro com o urso parece ter durado muito tempo, mas na verdade foram poucos segundos que pareciam que não iriam acabar mais. Senti um risco de morte completamente diferente de tudo que já havia sentido antes, diferente de um assalto, da adrenalina de um salto de para-quedas, de estar a mais de 160 km/h numa rodovia, etc. Era como se tivesse ativado em mim um instinto primitivo natural, como se eu tivesse voltado a fazer parte da natureza, assim como eram os primatas há mais de 200 mil anos. Minhas pernas tremiam sem parar. Depois disso, qualquer barulho que ouvíamos durante a trilha parávamos para prestar atenção, apesar de sabermos que a probabilidade de encontrarmos um outro (ou o mesmo) urso no parque ser mínima, afinal ursos não costumam viver em grupos, são espaçosos e vivem num raio de muitos quilômetros de distância entre um e outro.

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Um dos lagos avermelhados encontrados no topo da Eagle Mountain. A cor impressiona, mas todos estavam sem vida.

Com as pernas tremulas por um bom tempo, seguimos nosso caminho. Vimos alguns lagos de água turva e sem muita vida no topo da montanha e finalmente chegamos no topo de algumas pedras, a pouco mais de 1000 metros de altitude, com uma das vistas mais lindas que já vi. Era possível ver de lá de cima o Buntzen Lake, a Diez Vistas, North Vancouver, Vancouver e arredores. O nome da montanha logo fez sentido quando avistamos algumas águias sobrevoando nossas cabeças. Depois de algum tempo, algumas nuvens apareceram e começou a garoar, mas sabia que aquela garoa estava caindo somente sobre nós e não teria força para chegar lá embaixo, como se fosse algum sinal do céu ou alguma mensagem para nós. Senti dali daquelas pedras uma proximidade do céu e uma energia muito boa.

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Nossa vista do topo da Eagle Mountain.

A vontade era de passar o resto do dia e acampar a noite ali, mas não estavámos preparados pra isso. Fiz então o caminho de volta com algumas certezas. A de voltar pra aquele lugar melhor preparado em todos os sentidos, mas também com a certeza de ter agora de fato conhecido o Canadá e vivido uma experiência única. Se cada trilha tem sido uma aventura diferente e nessa me senti tao próximo do céu por 2 vezes, o que esperar das próximas? Na verdade, prefiro não criar expectativas, a natureza sempre cuida de nós e trata de nos surpreender. Ela é perfeita.

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Uma mensagem do céu: viva mais, sua hora não é agora.

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