[Post convidado] Crown Mountain – O sabor da conquista de uma coroa

Do you wanna read it in English? Click here.

Desde quando cheguei em Vancouver tenho feito algumas trilhas. Entre montanhas, lagos e parques, o que começou como uma atividade turística acabou se tornando parte do meu novo estilo de vida, uma verdadeira paixão. Encontrei na natureza a paz que eu tanto procurava e além disso, a certeza de que sempre irei viver uma aventura única já que os desafios sempre irão surgir nas trilhas em diversas maneiras. Comecei então a procurar por trilhas mais desafiadoras, ao invés das mais fáceis e populares. Foi quando descobri a Crown Mountain, meu maior desafio até o momento.

O que faz essa trilha ser tão difícil é que você tem que descer uma trilha muito íngreme até a passagem da Crown antes de subir o lado íngreme da Crown Mountain, e então retornar pelo mesmo trajeto. A mudança de elevação engana se comparada com outras trilhas, pois você tem que essencialmente caminhar pela mudança de elevação duas vezes. (Vancouver Trails)

Depois de duas tentativas mal-sucedidas de chegar ao topo da Crown Mountain, um amigo e eu decidimos que deveríamos tentar novamente. Em ambas, achamos que poderíamos ser mais fortes que a natureza tentando encarar as péssimas condições do tempo. Mas nossa terceira tentativa deveria ser bem-sucedida, assim refletimos sobre nossos erros pra nos prepararmos melhor e esperamos pelo dia com as melhores condições climáticas. Não haveria algo que pudesse nos desencorajar a chegar ao topo da Crown. Nós estavámos convencidos e focados em chegar lá.

Fomos expulsos da montanha devido ao tempo nublado e chuvoso na nossa primeira tentativa.

Com o intuito de guardar energia para a Crown, subimos a Grouse Grind em 1h27m. Uns 20 minutos acima do tempo que tinhamos feito das últimas vezes. Paramos então no restaurante da Grouse para um café rápido e seguimos para a trilha da Crown. No topo da Grouse, os funcionários já estavam preparando a pista de esqui para a temporada, jogando gelo com as máquinas e cobrindo todo o chão. A paisagem e o ambiente eram completamente diferentes de algumas semanas anteriores.

lake-crown-before-later-copyright

Duas fotos do mesmo lugar com 4 semanas de diferença.

A trilha também estava bem diferente das últimas vezes. Havia gelo e neve em alguns trechos, o que deixava o caminho escorregadio e um pouco perigoso. Algumas partes da trilha pareciam uma pista de patinação no gelo, não tinhamos então outra opção a não ser deslizar sobre o gelo de um ponto ao outro. E quando não estávamos deslizando ou caminhando, tinhamos que escalar. Diversas vezes ficávamos parados por minutos observando as pedras congeladas e a água escorrendo por baixo do gelo, tentando descobrir uma forma de avançar o caminho obstruído na trilha. O risco de cair e rolar ribanceira abaixo era iminente. Segurança era algo inexistente. A adrenalina é inerente na montanha.

IMG_3371-copyright

Patinar no gelo às vezes era a única opção para avançar na trilha.

Apesar de todos os obstáculos e riscos presentes no caminho, seguimos numa velocidade boa. Foi quando chegamos ao ponto que tinhamos parado da primeira vez. A partir dali, tudo seria novidade. Confirmamos no mapa e vimos que faltava pouco para alcançarmos o topo. A ansiedade aumentava a cada passo. A sensação de estar tão perto de uma dura conquista era aliviadora.

ice-rotated

Stalactites que mais pareciam lanças de gelo.

Os últimos passos até o topo da montanha parecem ser os mais longos. Mas a montanha parece de alguma forma me empurrar para cima e colocar as forças que já faltavam nas minhas pernas. E a prévia da vista do topo é estonteante. Cada respirada enchia meus pulmões com um ar frio e leve. O sentimento de felicidade era único, pois era gerado por uma vista incrível das montanhas com neve no topo e vales intermináveis repletos de árvores.

Logo avistamos um corvo no cume. Nosso objetivo era chegar onde ele estava, mas ele parecia reinar e demonstrava ser o dono da montanha quando olhava pra nós. Como se estivesse nos dizendo que ele chega ali muito mais rápido que nós e com muito menos esforço que nós, na hora que ele quiser. Mas o rei da montanha foi generoso, voou sutilmente para uma pedra ao lado e nos deu espaço para nos sentirmos reis também por alguns instantes.

IMG_3406-edited-copyright

Os últimos passos até o topo. O rei já estava lá.

Estar sentado em uma pedra a 1.504 metros de altitude me deixou sem palavras. Qualquer descuido ou perda de equilibrio poderia custar minha vida. Não havia nada abaixo de mim para me segurar caso eu escorregasse. Um giro de 360º com a cabeça me dava a real noção de quão alto estavámos. Era possível ver a cadeia de montanhas de Squamish e Whistler ao norte, a cadeia de montanhas da região de Coquitlam e Chilliwack ao leste, a Vancouver Island ao oeste e até algumas montanhas da fronteira com os EUA ao sul. Eu não sabia pra onde olhar. Neste momento ficou claro pra mim porque o corvo se sentia o rei sentado naquela pedra, privilegiado ele por poder ter essa vista quando quiser.

crown2-copyright

Os inúmeros vales e as montanhas nevadas da região de Squamish e Whistler ao fundo.

Comecei a contar com meu amigo a quantidade de vales que conseguíamos ver em direção ao leste, conseguimos contar 8. E entre um vale e outro, haviam as montanhas repletas de pinheiros ainda verdes e algumas com neve no topo. Essa sequência, caprichosamente esculpida pela natureza, me dava a impressão de que as montanhas eram como as ondas do mar e estavam em pleno movimento nos levando pra longe. Mas o mais impressionante mesmo era o silêncio, tão constante que me dava a impressão de estar em outra dimensão. Poucas vezes interrompido pelo grito de um corvo ou do vento contornando a montanha. Era um silêncio misterioso, um silêncio que não incomodava. Parecia ter tanta coisa acontecendo lá embaixo dentro da floresta, mas ao mesmo tempo parecíamos estar distantes de qualquer ser vivo. Um silêncio raro cheio de paz, impossível de ser sentido na cidade.

IMG_3412 - Goat Mountain and Mount Baker-edited-copyright

A Goat Mountain em destaque e toda a imponência do Mount Baker ao fundo, com seus 3.286m de altitude e a 116km de distância em linha reta, já em território americano.

Cidade que de lá de cima parecia ser uma maquete. Os navios na English Bay pareciam de brinquedo, como se alguém tivesse colocado eles com o dedo e deixado lá por horas parados. Os prédios, árvores e parques da cidade pareciam uma cena do jogo The Sims, e claro, como se eu estivesse ali jogando. Eu via a cidade mas ela não me via. Eu não ouvia a cidade e ninguém também me ouvia. Eu estava perto de tudo e longe ao mesmo tempo. Eu estava na montanha, mas o mundo continuou acontecendo.

IMG_3413-edited-copyright

O espelho, a maquete e os navios de brinquedo.

No topo de uma montanha, a única certeza que temos de que o tempo não parou é o sol. E o sol de outono sempre longe no horizonte iluminava a English Bay e o mar que refletiam sua luz como um espelho. Os vales localizados atrás das altas montanhas já deviam estar há dias sem receber uma luz sequer do sol, e com certeza, passarão os próximos meses assim. Seu calor, que quase não chegava em nós, era insuficiente para nos aquecer.  Por sorte não ventava forte e estávamos (dessa vez) bem agasalhados. Aliás, a temperatura no topo da Crown devia estar beirando os 0ºC. Conforme o sol foi baixando, lembramos então que era hora de partir, afinal era um dia de outono, tinhamos pouco mais de 8 horas de luz natural, não podiamos esquecer do tempo, senão a descida no escuro poderia ficar mais difícil ainda.

O caminho de volta só não foi pior por causa do descanso e da relaxada nas pernas que tivemos no topo. Voltamos devagar, mas numa velocidade constante, com aquela sensação maravilhosa de objetivo conquistado. Ainda assim, entre uma escalada e outra da trilha, eu sentia o músculo da coxa puxando e implorando para eu parar. Claro que eu o ignorava e continuava andando. Contudo, algumas paradas foram inevitáveis pra apreciarmos a beleza do pôr-do-sol que timidamente brilhava entre os pinheiros, e a cidade se iluminando preparando-se para a noite. E antes de retornar à cidade, ainda paramos por um tempo no início da trilha pra apreciarmos os últimos raios de sol no horizonte e as incontáveis estrelas começando a aparecerem no céu limpo.

IMG_3500-edited-copyright

A cidade se iluminando com a chegada do anoitecer.

Quanto maior o desafio, aior a vontade de conquistá-lo. Pode ser o topo de uma montanha ou todos os desafios que aparecem na via, nós não devemos nunca desistir dos nossos sonhos e objetivos, nao importa quantas vezes nos teremos que tentar ou quao dificil eles serão, se acreditamos que podemos fazer, entao realmente podemos. A Crown Mountain foi um dos maiores testes psicológicos que já tive na minha vida. Porem, me fez descobrir que sou mais forte do que pensava ser. E assim como na vida, a montanha definiu suas regras e determinou duros obstaculos para chegar la. Como se ela fosse uma rainha e tivesse dado o recado: “vou fazer você pensar em desistir do início ao fim, mas se você persistir não se arrependerá de conquistar a minha coroa”. Preciso dizer se valeu a pena?

dusk-copyright

A todo momento o sol está sempre se pondo para alguns e nascendo para outros. Desafios que chegam ao fim, novos desafios que vem a surgir.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s